Um problema muito comum quando temos crianças em casa é isso: muitas vezes os filhos não estão desobedecendo — não estão em rebeldia contra os pais — mas estão simplesmente muito “soltos”.  Correm à vontade, gritam à vontade, fazem o que bem querem, como bem querem e quando bem querem, tudo na vontade deles. Como os pais não falam para eles não gritarem e correrem, então não estão desobedecendo. No entanto, também não estão aprendendo a obedecer, nem a ter domínio próprio.

A evidência disso vem quando o pai pede para ele parar de correr, ou se sentar quieto por um tempo. É quando começa a desobêdiencia e a rebeldia do coração é revelada! Por não estarem sendo treinados em obediência nem em domínio próprio, seus pais acabam se estressando com o barulho e desordem dentro de casa, um ambiente que se torna desagradável para todos. Os pais temem levar os filhos para outros ambientes onde precisariam de um comportamento mais controlado, e receiam convidar outras pessoas para visitar sua casa. É até difícil os pais conseguirem conversar com tantas interrupções e distrações!

Demorei muito para escrever este artigo que considero importante, por ter receio de ser mal entendida. Então, antes de explicar melhor o que eu quero dizer, vou começar explicando o que eu não quero dizer. O que eu não quero dizer é que seus filhos nunca devem correr e gritar. Muito pelo contrário! As crianças são abençoadas com muita energia, e precisam ter o espaço e tempo para gastá-la. É importante para seu desenvolvimento mental e sua saúde física. Os meninos gostam de brincar de luta no chão com o papai, e é saudavel que assim o façam. Eu não estou sugerindo um ambiente rígido onde as crianças são oprimidas e têm que ser como robôs, ou pior, estátuas, sem liberdade para brincar.

Agora que espero ter deixado esta parte bem clara, vou tentar explicar o que eu quero sim dizer. A vontade própria da criança é naturalmente muito forte. Cada criança tem uma personalidade diferente, mas todas elas nascem com uma natureza pecaminosa – uma vontade que não quer se submeter a nada nem a ninguém. Uma boa parte da nossa tarefa como pais é ensinar a criança a se submeter a nossa autoridade, preparando-a assim, a se submeter a Cristo e fazer a vontade de Deus e não viver pelos próprios prazeres. A Palavra de Deus nos ensina sobre esta tendência:

Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder.” 2 Tim 3:1-5

Para que a passagem acima se cumpra na vida do seu filho, tudo que você precisa fazer é NADA. Pode ter certeza que sem o seu ensino cuidadoso, o resultado do caráter do seu filho será exatamente o que a Palavra de Deus nos disse: egoísta, desobediente, ingrato, sem domínio próprio, inimigo do bem, e todo o resto. Então, como podemos treiná-los a não serem assim?

Quando eu era adolescente, minha família tinha cavalos. O cavalo que eu costumava montar se chamava Cherokee, e era um cavalo bem treinado. Porém, se alguém que montasse nele não soubesse dar ordem de forma sutil a ele, apertando-o com as pernas e puxando levemente as rédeas para dar uma direção, ele era capaz de andar por onde o montador não queria, ou até correr e assustar quem estava montado nele. Ele não era malvado, simplesmente precisava de uma direção clara para saber o que se esperava dele e assim poder agradar a pessoa que o montava. Lembro de uma outra vez, quando eu montava, que ele não estava obedecendo muito bem as minhas ordens. Percebi então que tinha deixado as rédeas um pouco frouxas e assim, ele não estava bem sob meu controle.

Espero que não se sintam ofendindos com esta analogia, mas muitas vezes em casa (inclusive na nossa), o que os filhos precisam é de uma “rédea mais curta”. Não estão sendo malvados, mas sim precisam de uma direção mais clara. A criança mesma fica mais contente e sossegada quando está sob controle e quando sabe o que é esperado dela. Podemos criar um ambiente onde os filhos têm a liberdade de brincar, fazer descobertas, mexer o corpo e gastar energia, sem precisar suportar um furacão constante dentro de casa. Só precisamos dar uma direção, treinar eles na obediência, e não deixar as rédeas ficarem muito frouxas.

Vou tentar pintar uma imagem da nossa vida dentro de casa, e como aplico este princípio com nossos filhos. Já temos passado por muitas fases diferentes com os filhos de idades diferentes e com capacidades diferentes, e então a organização de casa muda com cada etapa da vida. Não estou dizendo que a sua casa tem que ser igual a minha, pois Deus te dará sabedoria quanto a maneira de colocar em prática a ação de organizar o lar.

QUANDO EU SÓ TINHA FILHOS PEQUENOS
Eu me lembro quando os dois filhos mais velhos tinham 1 ano e 3 anos, e depois 2 anos e 4 anos, e talvez mais ou menos até quando tinham 3 anos e 5 anos, a maior parte do dia eu dava a direção para suas atividades. Organizava o dia com uma rotina, e os deixava perto de mim, no mesmo cômodo praticamente todo o tempo. Tinham alguns brinquedos que estavam numa caixinha fora, para poder pegar e brincar a vontade, mas o resto – especialmente brinquedos com peças pequenas – ficava guardado num armário em caixinhas individuais. Neste tempo realmente parecia que eles não conseguiam ter ideias muito boas para poder inventar suas próprias brincadeiras. Se eu não dava uma direção, eles acabavam brigando, ou quebrando algo, ou simplesmente fazendo bagunça dos brinquedos sem estar realmente brincando. E então eu me estressava.

Então para evitar estas cenas, eu ficava no banco de motorista, e “dirigia” o dia. Por exemplo, eu pegava a caixa de legos, e colocava no tapete. Falava com uma voz alegre que era o tempo de brincar de legos! Eba! Legos! (Ter os brinquedos guardados até aquela hora de brincar aumentava a emoção de poder brincar quando eu anunciava.) Então explicava para eles que agora poderiam brincar com os legos, mas precisavam ficar no tapete. E eles iam brincando e se divertindo. Claro que houve situações em que brigavam por que queriam a mesma peça, ou em que alguém saía do tapete só para testar os limites. É normal, e é justamente assim que as crianças aprendem. São oportunidades para reforçar os limites e instruir seus corações. É assim que as crianças aprendem!

Muitas vezes eu usava um timer de cozinha e explicava que por meia hora, ou uma hora, dependendo da sua idade e capacidade de concentração, eles iam brincar com legos. E quando o timer tocava, guardávamos os legos. Mesmos que eles às vezes queriam continuar brincando, guardávamos. Por que? Porque é melhor guardar enquanto estão ainda se divertindo com eles, para que fiquem com vontade de brincar de novo amanhã. Pelo contrário, se esperar até que estão totalmente enjoados da brincadeira, vão ficar com um sentimento negativo sobre tal atividade e não vão querer repetir tão cedo.

Outras vezes, não usava o timer de cozinha, e simplesmente observava o comportamento deles. Quando eu via o primeiro sinal de que estavam se cansando da brincadeira, guardávamos pela mesma razão que mencionei acima. Assim que guardávamos os legos, eu anunciava que era hora então de brincar fora, por exemplo, e saíamos para o quintal. E depois de um tempo no quintal, eu falava, “Vamos para a cozinha fazer bolachas juntos!” ou “Vem ajudar a mamãe limpar o banheiro agora!” ou “Vamos entrar agora para ter um tempo de leitura” ou “Sentem agora na mesa para montar um quebra-cabeça” e assim por diante. Eu não planejava todas as atividades com antecedência, como se fosse uma escola, simplesmente via a necessidade da hora. Se precisavam de um tempo para atividade física – como um tempo de dançar juntos ou fazer exercícios, ou um tempo que eu precisava lavar roupa e então eles iam juntos comigo fazer. Se eu precisava de quietude para ver mensagens de email, eu então escolhia uma atividade mais quieta, como de assistir um vídeo, ou se sentar a mesa para colorir.Não era sempre que eu brincava juntos. Muitas vezes dentro do parâmetro que eu dava, eles brincavam usando a própria criatividade deles. Muitas vezes enquanto eles brincavam eu precisava estar fazendo minhas coisas, como na cozinha, ou amamentar o novo irmãozinho, etc, mas estava perto deles, e com um olho e um ouvido prestando atenção neles. Por que? Porque era assim que eu tinha a oportunidade de estar treinando seu caráter segundo o caráter de Cristo, de estar desenvolvendo um bom relacionamento com eles, e de estar criando um ambiente agradável dentro de casa onde todos gostavam de estar e onde eles poderiam florescer, crescendo em criatividade, em domínio próprio, em obediência, e em concentração e em relacionamento com os outros membros da família.

Muitas vezes, eu os envolvia nas minhas atividades cotidianas – cozinhar, lavar roupa, limpar a casa. As crianças se sentem muito orgulhosas de poder ajudar fazendo algo útil, e ao mesmo tempo, é uma grande oportunidade para ensiná-las! Ensinamos fazer coisas práticas, e também conversamos sobre o mundo e a vida durante o tempo que trabalhamos juntos, formando assim, sua cosmovisão e ensinando eles a ver o mundo com uma ótica bíblica. É um discipulado prático que a mãe (e o pai!) tem o privilégio de fazer, quando ela fala “vem cá”, ao invéz de falar “vai para lá” quando ela precisa fazer suas coisas dentro de casa. Isto tem sido nosso estilo de vida desde que as crianças eram pequenas.  Claro que houve muitas vezes também que, por estar correndo muito, ou por preguiça da minha parte, as rédeas ficavam frouxas, as crianças ficavam fora de controle, e eu ficava estressada! E assim me dava conta que era preciso parar de correr tanto, ou parar de folgar, para poder voltar ao “banco de motorista”.

E se eles não querem fazer a atividade indicada?
Nesta situação, eu testava então o coração deles. Normalmente, quando eles resistem a ordem de fazer tal atividade, não é por não gostar da atividade, mas sim é por não querer se submeter. É um problema de atitude. Então, eu tratava como desobediência. Eu falava, “Tá bom se não quer brincar de legos agora, por mais uma meia hora, até o timer tocar, vai só sentar no tapete sem brincar com os legos.” A maior parte do tempo, ele então resolvia que ia ser mais divertido sentar no tapete e sim brincar com os legos, e acabava o conflito assim. Se ele escolhia insistir em não querer nem brincar com legos, nem sentar no tapete, nem fazer nada que eu mandava, então eu tratava como qualquer outra desobediência. Ele precisava de correção.

Às vezes, um filho sugeria uma atividade ou pedia um jogo: “Podemos colorir agora, mamãe?” Muitas vezes, eu concedia o pedido dependendo da situação. A ideia certamente não é oprimir a criança! É simplesmente dar uma direção para que esteja fazendo coisas construtivas e não ficar sem o que fazer, ou inventar coisas destrutivas para fazer.

AGORA, COM FILHOS MAIORES
Agora, nosso filhos crescerem um pouco (o mais velho tem 11 anos) e não preciso manter as rédeas tão curtas todo o tempo. Eles estão conseguindo ter ideias melhores e construtivas do que fazer com seu tempo livre. É importante que tenham tempo livre para poder desenvolver seus interesses. (O mais velho, por exemplo, gosta de fazer videos com legos. ) Muitas vezes os maiores envolvem os menores nas atividades deles, e então eu não preciso ter todas as ideias para dar direção as atividades todo o tempo. É muito lindo ver como isto tem acontecido! Mas, ainda temos um estilo de vida que promove a obediência e que cria um ambiente de paz e alegria dentro de casa. Mesmo agora, não é sempre que têm uma boa ideia do que fazer. Ainda precisam de direção pelo menos alguma parte do tempo. Às vezes ficam “soltos” demais e preciso dar uma ajuda para eles direcionarem a energia em algo construtivo.

Às vezes, por exemplo, os maiores precisam estudar, e eu preciso ajudá-los. Então tenho feito assim para os menores: coloco uma manta no chão para cada filho menor (agora com 1 ano, 4 anos e 6 anos) e em cima, alguns livros e dois brinquedos. Explico que por uma hora (ou meia hora, dependo do caso), vão ficar em cima da própria manta, e brincar só com as coisas que tem em cima. Assim, eu tenho o tempo que preciso para ajudar os maiores, que terão o silêncio que precisam para se concentrar nos estudos, e os pequenos estão aprendendo a ter domínio próprio e estão crescendo em concentração. É muito bom para eles ter este tempo e aprender a ser criativos com as poucas coisas que têm na manta! Eu tenho me divertido em ver as coisas que inventam para fazer – é muita imaginação!

Tirei estas fotos hoje mesmo. A Olívia, com 1 ano e 4 meses, passando um tempinho na manta. Acima, ela está colocando imãs num quadro, e em baixo, brincando com aneis de madeira. “Só não pode sair da manta!”  Para ela, uma meia hora é tudo que consegue. 🙂No mesmo tempo, Johann (4 anos), na manta do lado, com um livro. Depois de cansar do livro, ele brincou de dominós, que também estavam na manta.

Outras vezes, preciso de um tempo a mais silêncio, para escrever um artigo por exemplo. Então falo para todos buscar um livro para ler e sentar no sofá e ficar uma hora em silêncio. Os menores às vezes desenham num caderno durante este tempo, já que não conseguem ler muito bem sozinhos ainda. Outra vez volto a falar – é muito bom para eles! Claro que é bom para mim ter este tempinho para poder trabalhar, mas não faço só para meu próprio bem, e sim, também faço porque é bom para eles! Eles estão crescendo em maturidade assim, e sempre explico para eles os benefícios de praticar o domínio próprio e a obediência. Falo para eles que com a habilidade de praticar domínio próprio, poderiam ir para qualquer lugar e ter muitos privilégios que não seriam possíveis de outra maneira.

O nosso filho que agora está com 4 anos de idade, ainda está em falta de domínio próprio. É um processo! Às vezes quando todos estão brincando juntos, eu vejo que ele está precisando de uma “rédea mais curta”. Então, chamo ele e o deixo perto de mim. Não está de castigo! Estou simplesmente ajudando ele a crescer. Dou uma atividade para ele fazer perto de mim, ou então envolvo ele no que eu estou fazendo – ele se torna meu ajudante especial! É um privilégio, não um castigo! A nossa atitude de alegria (ou a falta dela) faz a diferença entre um filho que se sente de castigo nesta situação, e um filho que se sente sortudo por conseguir um tempo especial com a mamãe.

VOCÊS SÃO OS PAIS!!
Então, sejam pais! Uma rédea muito frouxa não serve para ensinar os filhos os princípios da vida e da Bíblia. Não estou promovendo um ambiente rígido dentro de casa para sufocar a personalidade dos filhos, muito pelo contrário! O que estou promovendo é um estilo de vida em que você, querido pai, querida mãe, está sendo pró-ativo em “educar a criança no caminho em que deve andar”, para que todas as qualidades da passagem acima não sejam as qualidades da vida dela: preguiça, ingratidão, desobediência, egoísmo. Mas que sejam desenvolvidas nas vidas dos seus filhos as qualidades de caráter segundo a sabedoria da Palavra de Deus: obediência, domínio próprio, diligência, amor. Não deixe a babá eletrônica roubar o tempo precioso que você tem com teu filho hoje. Não deixe o ambiente de sua casa se tornar tão desagradável que nem você aguenta estar e não vê a hora da criança sair para a escola para você poder ter um pouco de paz. É possível ter paz quando seu filho está em casa! É o que ele também deseja, e é o que o pai dele deseja quando volta do trabalho. É assim que vai poder ensinar a Palavra de Deus para ele, pois é difícil ensinar alguém que não consegue ficar sentado e quieto por dois minutos. No final das coisas, você consegue desfrutar muito mais da companhia do seu filho e construir um relacionamento com ele que durará a vida inteira quando ele está sossegado e obediente. É o desenho de Deus, e é possível!

Assim vemos alguns benefícios de ter e ensinar o domínio próprio, o qual é bíblico e prático. Então coloquemos em prática!

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